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MEMÓRIAS DE UM EX-SEMINARISTA – Parte XX

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cabelos-longos-e-negros

Férias… mas que férias!?

Seis meses me separaram dos familiares desde a última vez que os vi. Muita coisa nova me esperava.  Vovô Joanim  já não se encontrava mais conosco. Sua morte foi-me participada havia dois meses e só agora o fato teve relevância. Ao visitar vovó Lídia, a viúva, pude observar o vácuo deixado por ele. Homem simples, de fácil se dar, me adotara como seu colega de pescaria. Andávamos longos trechos pelos trilhos da Central do Brasil que margeava o Rio Paraibuna e íamos buscar  em pesqueiros “secretos” os petiscos do jantar. Agora o vazio.

Meus irmãos cresceram como nunca e exceto por um detalhe interessante, a cada vez que em casa me aportava,  tinha a sensação de tudo em casa estar diminuto. A moradia como que se encolhera.

A novidade mais importante foi a inauguraçã de uma casa bem vizinha à nossa.  Era uma construção nova  pertencente ao Conjunto JK , no local exato onde antes ficava pequena lagoa, objeto das minhas peraltices infantis.

A saudade do local de velhas lembranças, no entanto, logo se esvaiu. Uma figura está sendo a responsável por isso. O nome dela é Mercedes. Longos cabelos, negros e lisos. Mal pude ainda observar seus olhos. É moda os cabelos estarem caídos pelo rosto, qual burka natural. É linda. Tem a minha idade. Filha de numerosa prole sendo uma das caçulas. Já freqüenta nossa casa, amiga de minha irmã Conceição. Tão logo aqui cheguei veio se apresentar e  conhecer o visinho “padre”. Desde então me vi perdido em sensações e pensamentos nunca dantes experimentados. Um como fogo ardente queima-me por inteiro. Sinto-me estranho. Muito diferente do que sinto por meus pais, irmão e amigos.

Nunca foi tão gostoso ir à missa. Voltar junto com grupo onde ela estava ela era divinamente agradável.

Minha irmã, como soer deve acontecer com algumas mulheres, alcovitando, facilitava os encontros e reencontros. Meus pais, na santa inocência, tinham tudo como muito normal.

O pior é que o tempo dispara justo quando as coisas são boas e favoráveis. Os vinte dias das férias sumiram como por encanto.

Retornando à lide clausural já não tenho mais outros que não pensamentos à Juiz de Fora. Não me seguram mais razões outras que dantes me fixara tão longe dos meus.

Tudo me parece estranho. As luzes e os verdes deste lugar já não brilham nem colorem mais como dantes .

Iniciou-se o segundo período escolar do ano letivo com as atividades pertinentes. Como “terapia ocupacional” qualquer desforço pareceu-me inútil. Por muitas vezes estou sendo chamado à atenção às aulas. Estou sempre no mundo da Lua. ” Lua com cabelos compridos e olhos escondidos”.

Fui chamado a uma reunião particular com o Irmão Reitor. Não imaginava a que se atinha tal encontro. Os resultados escolares do mês em andamento ainda não tinham sido recolhidos. Seria ainda o assunto do cigarro nos bastidores do teatro?

Dia seguinte e após os afazeres matinais, preces e faxinas, sou convocado à tal reunião. Estou mais ansioso que apreensivo. Adentro o gabinete austero do Reitor. Sou convidado a sentar-me e ficar aguardando alguns instantes enquanto o mestre assina uns papéis.

Finalmente, após ler uma ficha que detivera à parte, inicia a conversa perguntando como estou. Respondo-lhe que “bem”. Dá uma espiadela na ficha, que certamente, agora tinha eu convicção, era minha. Diz querer saber o motivo de minhas preocupações atuais, ao que respondo evasivamente, e com sinceridade: “nenhuma”.

Perguntou-me como foram as férias, como encontrara a família, que locais eu visitara e quem eu conhecera.

Sempre fui muito sincero. A lição que papai mais evidenciou foi a de que nunca mentisse, fosse em que oportunidade fosse. Abri-me pois ao caro superior como sempre o fiz com papai.

O mestre me olhou com carinho e compreensão. Fez-me ver que o que sentia não era pecaminoso ou errado. Muitos que ao seminário chegavam, depois de algum tempo acordavam para outros sentimentos que não o do celibato e da reclusão. No entanto convida-me à oração e reflexão. Que permanecesse ainda o restante do ano em observação. Deixasse o tempo passar. Ao final do período em nova conversa decidiríamos, os dois, o melhor caminho a tomar.

Os dias foram rolando, devagar como carroça ladeira acima.

Agosto chegou e não deixei que terminasse. Pedi nova reunião. E expus minha vontade de partir.

Não houve oposição. Foi como se já se esperasse por este resultado. Só foi pedido tempo para uma troca de correspondência entre a Direção e papai.

Os valores necessários para a viagem chegaram com a resposta de papai.

Não obtive, como praxe, oportunidade para despedidas. Não podia ser o motivo ou estímulo a outras deserções. Muito menos pelos motivos supostamente aventados.

Voltei para o “mundo” no dia 5 de setembro de 1964.

Comigo acompanharam valores imensos. Dos Maristas tive a oportunidade de não só ter crescido como cristão, mas como verdadeiro cidadão, esta última virtude inseparável da primeira.

Não imaginava, no entanto, quanta influência teria estes pouco menos de cinco anos em toda minha existência.

Nota do autor:

A resolução  em encerrar nesta data estas pueris “memórias” prende-se ao jubileu de ouro (50 anos) de minha chegada ao Juvenato São José das Palmeiras na Cidade de Mendes – Estado do Rio de Janeiro.

Agradeço de coração às inúmeras postagens realizadas por leitores contumazes deste blog.

Em especial e em nome de todos os outros, nomeio minha gratidão

à “ Manhosa – Loba Virtual”  do (http://amanhosalobavirtual.blogspot.com)

e ao Shintoni  do (http://duelosliterarios.blogspot.com)


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No dia: 19/01/10

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte XIX

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Palco+da+vida

Concomitante às perturbações políticas da nação brasileira, nossa vida em seminário segue a rotina usual só quebrada pela saída abrupta do nosso convívio de colegas, muitas vezes amigos chegados. A cada separação repentina cabe a quem fica a administração da perda.

Dá-se o nome de “ir para a bica”, o fato das saídas súbitas. O significado do cognome dado a este evento, conforme reza a tradição local, é do e um sujeito que vai à bica para saciar a sede, escorrega e cai.

Vê-se que o sentido de queda não é aleatório. Associa-se ao episódio como derrota, ruína, perda e prejuízo. Há um quê de cuidados para não permitir muitos comentários sobre os afastamentos. Censura explicada, talvez, pela maledicência que daí pode advir ou, a meu julgamento, para evitar que companheiros simpáticos ao que “embicara” possam, sem razões maiores, seguirem os seus passos.

O certo é que eu analiso as reações de toda comunidade,  já me colocando como um dos próximos candidatos a resvalar  no “limo da bica”.

Iniciado o ano escolar, como de costume, é dada a partida aos ensaios de nova peça teatral. Meu papel, coadjuvante e de menor importância, com poucas falas, tem porém, significado no enredo de “JULIANO O APÓSTATA”. Peça que traduzia a saga dos primeiros cristão ao tempo das perseguições.

Os cuidados da trupe na construção dos figurinos eram desde cedo tomados. Cada qual laborava, baseados em um projeto, na construção dos capacetes dos soldados romanos, da coroa do rei, dos mantos, arcos e flechas, lanças, panos de bastidores etc.

Duas a três dezenas de companheiros estão investidos na façanha que apresentaremos em meados do ano. O interessante é que o Irmão Constantino, sempre solicito e amável, é severo o bastante para nos exigir mantenhamos em segredo não só o enredo da peça como até mesmo o seu título. Não me recordo de que em anos anteriores houvessem vazamentos.

Eu farei também parte de uma esquete, geralmente humorística, que entremeia os atos da peça teatral permitindo que os bastidores sejam reformulados às exigências do enredo.

No cenário político os acontecimentos precipitaram-se: Os militares, sustentados pela Igreja Católica e outras organizações da sociedade que clamam por ordem na ameaça anárquica, toma a frente e o General Aragão Filho lidera, com as forças vindas de Minas Gerais, abafando qualquer levante a favor do infeliz João Belchior Marques Goulart, presidente perdido em querer transferir ao solo brasileiro um regime socialista.

De resto, rotina, rotina, rotina.

Junho desponta como sempre com os esperados festejos de São João, as apresentações teatrais tão aguardadas e a novidade: férias do meio de ano em família, dantes nunca ocorridas.

A apresentação teatral, muito competida pelos convidados como todos os anos. Os trabalhos, tanto por parte dos atores como sonoplastia e iluminação, impecáveis. Só um acontecimento arranhou minha participação: enquanto aguardava a apresentação do terceiro ato da peça principal, e após ter concluída a exposição da esquete, estando eu e mais três colegas nos alçapões do palco, acendemos e “apreciamos” um cigarro retirado de um maço adquirido pelo contra-regras e usado pelo ator humorístico. Não contávamos com a ingerência do nosso Reitor Irmão Zeno Ângelo Camata, que certamente já pressentindo alguma peripécia nossa, nos pega em fragrante. Nada foi dito, nada se escutou. Basta seu olhar de inquisidor sobre os óculos redondos, grossos de aro fino para saber que estava tudo muito, muito censurável.

O tempo passou, saímos de férias e nenhuma conseqüência da peraltice praticada, aparentemente, teve curso.

No dia: 04/01/10

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Cap XVIII

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comunismo

Tão logo terminamos o retiro espiritual neste final de ano de 1963 fomos liberados às férias familiares.

Confesso que nunca estive tão ansioso por espairecer junto aos meus queridos pais e irmãos.

Têm-me ocorrido pensamentos de voltar definitivamente ao convívio dos entes queridos. Não que haja da parte do ambiente de internato algo que cresça repúdio por ele, pelo contrário,  tenho vivido dias de maior integração com meus amigos. Mas, a sensação de estar em lugar errado não desapega de meus pensamentos. Vou completar dezesseis anos dentro de quatro meses. Apesar dos motivos que me trouxeram ao seminário foram outros que não o vocacional, durante estes últimos anos tinha já aceitado ser do ambiente religioso a dedicação de minha vida. Mas, há alguns meses que venho tendo freqüentes inclinações a querer outra coisa que não a vida celibatária e “reclusa”.

Li e reli muitos assuntos da vida militar. Fascinam-me a vida da caserna, a disciplina de soldado, a possibilidade de ter um dia voz de comando e quem sabe galgar a carreira dos grandes heróis da pátria. Sou filho de um ex-combatente da última guerra mundial. Sempre que papai relata os feitos de batalha, como que um frenesi abate sobre mim.

Estou em Juiz de Fora para passar o Natal, fato que desde 1960 não ocorria.

Está sendo maravilhoso poder compartilhar momentos íntimos com meus nove irmãos. Agora somos dez. Mamãe há cinco meses recebeu a visita de mais um irmãozinho. Como praxe em toda família de italianos, fui escolhido, como o mais velho, juntamente com minha irmã Conceição, convidado a ser o padrinho de batismo do bruguelo. O Maurinho dá início a uma lista de afilhados que certamente terei por toda a vida.

Se o ambiente pessoal familiar se modificou durante estes últimos quatro anos por conta do desenvolvimento de meus irmãos, o espaço físico também teve suas variações. Por conta de papai estar agora com trabalho fixo, tem aprimorado a casa adaptando-a tanto ao maior conforto quanto a crescimento da turma.

Por tudo isto, tenho pensado em poder retornar ao ninho que eu abandonara só para ser uma boca a menos.

Os companheiros de rua e bairro assim como eu, cresceram. Como é gostoso encontra-los, não mais nas molequices de outrora, tempo que nos parece longínquo, mas agora às saídas da missa das sete da noite, ou nos papos de esquina da pacata Rua Inácio Gama no Bairro de Lourdes.

As visitas aos parentes é uma praxe que mamãe não perdoa. Em alguns momentos, estes passeios são puramente agradáveis. Visitar minhas primas Terezinha, Maristela, Lena e Marice Cal.  Meus primos Waltinho, Zé Carlos, João Batista e Juarez. No entanto, a paparicação de meus tios e avós me incomoda. Sou visto como o “santinho”, o “padre” da família. Sentimentos vão de choque contra a minha breve intenção, ainda secreta, de sair do seminário. Permaneço, portanto, em palpos de aranha. Calo-me ainda. Não sei qual seria a reação de papai e mamãe quando e se eu decidir por isto.

Terminados os vinte dias de tão breve descanso retorno às lides, agora se apresentando rotineiras, do seminário.

Passados alguns dias das ainda vívidas férias, o quadro nacional é perturbado por densas e negras nuvens. A política, diariamente acompanhada pela voz do locutor da Rádio Globo, o Repórter Esso, Heron Domingues, avalio o distúrbio que o Presidente João Goulart vem trazendo à nação desde a renúncia de Jânio Quadros.

O jornal Zero Hora, de Porto Alegre, achincalha o sentimento mais profundo, religioso, do Brasil fazendo publicar em primeira página uma estampa grotesca de Nossa Senhora Aparecida. Estão anunciando, em tintas pesadas o que será do Brasil caso opte pelo socialismo de cores soviéticas.

A condecoração do guerrilheiro Che Guevara por Jânio Quadros quando ainda presidente, a visita do presidente Goulart á China Comunista,  envio de caravanas de políticos, professores e estudantes à Cuba e à China, apoio governamental a invasões de terras pelas ligas camponesas lideradas pelo deputado comunista Francisco Julião, apoio de ministros à subversão da ordem, ataques diretos de políticos do Governo aos Estados Unidos, pregação oficial contra a hierarquia militar, e principalmente a presença  do Presidente da República discursando frente a uma gigante manifestação de soldados e cabos contra oficiais e ministros, no Rio de Janeiro.

A Igreja, a Imprensa, os Empresários, as Classes Profissionais, as donas de casa e os Militares, protestam perante a conturbada Economia Brasileira enfrentando inflação com índices mensais superiores a 50%, elevado desemprego e baixo crescimento.

Tudo isto acompanhado com voracidade pelos nossos ouvidos , inda que adolescentes, já educados a discernir o joio do trigo.

Março terminou com notícias de movimentos sociais e militares. João Goulart foi deposto. Queira Deus que tudo serene. Que a paz retorne ao nosso sofrido povo. Dizem que está uma situação de guerra. Temo pelos meus familiares. Aquece o desejo de estar com eles.

No dia: 06/12/09

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte XVII

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Hipnose

O novo ano que se inicia não deverá ser diferente dos outros anteriores. A rotina do internato é preenchida com muito estudo, missas e orações, retiros espirituais e é claro participações em jogos, disputas e campeonatos, desde o futebol, rúgbi e vôlei até os jogos de salão xadrez, damas, carteados, pingue-pongue, sinuca etc.

Eu continuo expert em previsão do tempo. As setas da rosa dos ventos no cimo do dormitório dos noviços dão-me, através da posição do cata-vento, adicionada pela direção das nuvens, a indicação se choverá ou não no dia seguinte. A pesquisa é maior quanto mais próxima houver a promessa de piqueniques, passeios, jogos.

Às quartas feiras temos livres as tardes para esportes ou trilha pela floresta. Portanto nas terças o trabalho de pesquisa do tempo já está programado.

A grande novidade deste ano está sendo a participação maior em peças teatrais e esquetes. O Irmão Constantino, abnegado e paciente condutor dos peraltas adolescentes metidos a artistas, continua a tirar leite de pedra.

Por ocasião do encerramento dos semestres escolares de meio e final de ano são apresentadas seções teatrais. Os nobres convidados contam-se entre religiosos, políticos, fazendeiros vizinhos e moradores do entorno da fazenda que vêm  usufruir conosco de momentos ansiosamente aguardados.

Apesar de eu participar de todas as atividades do juvenato, de ter passado como líder por Uberaba, sou tímido e retraído. Até mesmo assistir filmes infantis de desenho animado faz-me ficar tenso e nervoso ansioso com o destino dos personagens. Falar em público apresentando trabalhos quer em sala de aula ou solando o canto chão nos recitais das “Vésperas” lá na capela, é para mim grande dificuldade.

Recebemos a visita de um Irmão Marista da província do Sul. Irmão Vital é o seu nome. Catarinense de porte considerável tem em seu nome o que estampava em seu rosto vermelho e olhos de um azul celeste: expirava vitalidade.

Fará amanhã uma apresentação no salão de teatro sobre hipnotismo. Trabalha com letargia e paranormalidade. Procurou entre nós, fazendo testes, “cobaias” para sua apresentação. Fui escolhido tão logo colocou em mim seus olhos. Parece ler nossa alma. É psicólogo. Durante os testes que me coube fazer com ele acabou descobrindo meus problemas de timidez. Passou-me lição que deveria repetir para extirpar tal mal. Descobriu no dorso de minha mão direita, bem perto do pulso, como também na parte interna do meu polegar direito, duas verrugas que me causam muito desconforto. A do dedo prejudica, inclusive a caligrafia. A do dorso sempre a bater em paredes sangrava amiúde. Passou-me lição urgente e sendo seguida, garantiu, em menos de quinze dias teriam sumido as aberrações que já me acompanhavam há anos. Eu já tinha feito antes diversos tratamentos inócuos, incluindo aí ácidos aplicados pelo “bondoso” Irmão enfermeiro.

No dia seguinte estamos eu e mais uma meia dúzia de colegas em cima, no palco, a disposição do “mestre”.

Entre diversas apresentações a que mais surpreende, perante uma platéia de mais de duzentas pessoas, é a imposição de mãos do Mestre Vital sobre pesada mesa e suspendê-la a considerável altura do solo. Em seguida, abaixada a mesa, nós seis auxiliares não conseguimos suspendê-la de forma alguma.

Outra impressionante demonstração foi testemunhar a interferência dele sobre um vazo de planta. Se seu rosto já é rubro por natureza, durante esta exposição ficou da cor de um tomate maduro. Espalma suas mãos em direção à planta a uma distância de uns dois metros, colocada que fora à beira do palco. Em pouco menos de minuto nota-se que a planta vai murchando defronte nossos olhos.

Atravessou-me o pescoço com um grande alfinete e fez-me passear pela platéia. Retirou depois a peça de aço e novamente fui vistoriado pela curiosa platéia que estupefata não encontrou cicatriz e muito menos sangramento.

Diversas outras peripécias foram apresentadas: Abraçados, dois a dois, nós éramos desafiados a desfazer o abraço. Um colega colocado deitado, tendo somente o calcanhar e a nuca apoiados em duas cadeiras, suportou três de nós sentados em cima dele sem ao menos vergar o corpo.

No mais, além de minhas verrugas se esfarelarem em menos de duas semanas, tudo corre sem grandes percalços.

Dentre todas estas amenidades e outras nem tanto tocamos o ano de 1963, só mesmo maculadas pelas adversidades políticas que já permeavam o noticiário do “Repórter Esso”.  O governo do “vassoureiro” Jânio Quadros está fazendo água. Há um desconforto político. O socialista João Goulart, nosso vice-presidente da república, tem praticado alguns atos que estão desagradando religiosos e militares.

Final de ano, vésperas de Natal dá-se início ao nosso retiro espiritual.

Este ano seremos atendidos por um pregador Jesuíta. Homem sisudo mas de coração brando.

Guardo no entanto grave impressão de suas pregações, principalmente quando afirmava que na porta do inferno tem um relógio cujo pendulo ao balançar aponta para duas palavras escritas em cada lado: “Sempre” e “Nunca”. Significando para quem cair no inferno, nunca mais sairá e sempre ficará ali. Achei tétrica e inverossímil tal comparação. Não acredito em um Deus cruel que pune tão barbaramente seres ainda imperfeitos. No dia de confissões declarei a ele, pobre e singelo padre, minha visão sobre o Deus de amor que eu compreendia. Não gostou e pediu que eu rezasse par obter a minha conversão.

Chegam finalmente as férias em família. Posso desfrutar de vinte dias com meus familiares em Juiz de Fora.

No dia: 29/10/09

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte XV

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Casa nova, vida nova!

Belo Horizonte. Como é desconhecida esta capital para os “mineiros” de Juiz de Fora. Não é à toa que nos apelidam de “cariocas do brejo”. Estamos lá, de costas para nossa capital e virados para Rio e São Paulo. Acho que vem daí a rivalidade também dos Cruzeirenses, Atleticanos e Americanos para com o nosso pobre Tupi Footeball Club.

Enquanto aguardávamos os transferidos de Mendes e os novos juvenistas para compormos uma só caravana, fomos conhecer os lugares mais pitorescos da capital mineira.

Mais uma vez o privilégio de tocar os pés no que seria o futuro Mineirão. As arquibancadas à meia altura de construção já nos deslumbrava. Fomos ao que seria o meio do campo. Tinha uma amostra em forma piramidal com as diversas camadas que formaria o subsolo do gramado: Pedras graúdas, seguidas de outras menores até chegar à areia grossa, depois terra firme e enfim o gramado serviriam para os engenheiros projetarem o que seria o nível do segundo maior campo de futebol do mundo.

Visitar a Pampulha com seus murais, a lagoa e o seu vizinho aeroporto, bem retirados da cidade, foi um grande passeio.

Algo que presenciei ficou marcado em mim profundamente: Irmão Diniz nosso futuro professor que iria conosco para Uberaba, nos levou à Faculdade de Letras onde terminara uma pós-graduação para pegar o seu diploma. Visitamos o grande complexo da Universidade Federal de Minas Gerais. Logo após esta visita, ele, Irmão Diniz, dirigindo a Kombi em que viajávamos subiu um morro contendo casas muito pobres. Surpresa maior foi quando deparamos com diversas casinhas proletárias de tijolos. Muitas já prontas outras pela metade e algumas nem tanto, com alguns voluntários, rapazes e moças a meter a mão no barro a erigir paredes. Ele fora o responsável técnico e mentor da grande obra de caridade destinada a substituir barracos de papelão e latão, ainda às fartas por onde a vista alcançasse. Pelos cumprimentos e depois despedidas, vimos muitas lágrimas, tanto dos trabalhadores quando dos futuros moradores. Fiquei sabendo então que seria a sua última participação naquele local de trabalho. Tinha tirado, logo que chegamos, farta quantidade de merenda distribuída a tantos quantos ali estavam. Creio que ele também, como eu e, aliás, como todos nós, sofria de suas perdas na vida.

Chegou o dia da viagem com a vinda do ônibus do Clolégio Marista São José lá do Rio de Janeiro. Era uma grande jardineira, com seu bico comprido, trinta e dois assentos, todos ocupados por colegas chegados de Colatina-ES, Vila Velha-ES, Montes Claros-MG, Dores do Indaiá-MG e Patos de Minas-MG. Compúnhamos pequena comitiva, porém grandemente ansiosa pelo que nos pudesse aguardar em Uberaba-MG.

Algo interessante ocorreu nesta viagem. Dos dez contos de réis que ganhara do vovô gastei um conto com o pintinho Lamparina e os outros nove estavam pesando em meus bolsos não acostumados a possuir tão “elevado” valor. Na primeira parada à beira da tremida estrada de chão batido que ligava a capital ao triângulo mineiro, comprei um pacote de balas e não vendo nada mais útil, adquiri uma lata de azeitonas. Levando-a já aberta ao ônibus, ofereci aos colegas e estranhamente ninguém quis saber do meu regalo. Distraído com o chocalhar da estrada e da paisagem esvaziei a lata de quinhentos gramas, sozinho. Só sei que o resultado não foi bom. Não demorou muito uma cólica intensíssima me acometeu. Segura daqui e dali, não medi esforços para “determinar” ao motorista que parasse na primeira civilização que encontrasse. Foi o que ocorreu. Beira de estrada qualquer, às carreiras, adentrei um cubículo mal cheiroso instado como banheiro. O resultado foi sentido menos de um mês depois quando fui levado a um médico e constatado uma infecção na epiderme, por contato com algum lugar “sujo”.

O novo lar é lindo. Construção novinha cheirando a tinta fresca. Grandes e espaçadas salas de aula. Auditório de grandes dimensões. Uma capela especialmente construída com sistema de ressonância equilibrada para os corais que ali se apresentariam em missas solenes. Isto tudo em um grande sítio arborizado com piscina de água natural corrente e fruteiras diversas.

Não bastasse tudo isso, tínhamos a nossa disposição sete campos de futebol divididos entre si por frondosas mangueiras, localizados a pouca distancia do seminário,  no Colégio Diocesano de Uberaba, também dos Maristas.

Não consigo me esquecer do primeiro banho de piscina que fomos apresentados ao final do segundo dia. Eu, de calçãonovo, azul-marinho, a exemplo de companheiros que mergulhavam, decidi pular n’água. Mineirim dos bãos, diz o ditado, fica longe d’água. Constatei de imediato a razão disso. Novato na arte, senti a pressão da água em meus pulmões e ato contínuo aproximei-me da beira e pulei fora. Este pulei fora tem uma conotação bem própria: pulei sozinho, o calção ficou. Consegui de um entorce e um safanão evitar que o mesmo se afundasse e ali mesmo enfiei-o pernas acima. Envergonhado não sei se do vexame ou da tinta azul que escorria pernas abaixo vinda do calção ex-novinho-em-folha.

No dia: 14/09/09

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte XIV

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Mudanças

Foi um bom ano. Por ter repetido o ano letivo, passei pelo “admissão” com ótimo proveito.

Os acontecimentos mundiais seguidos pela radio-eletrola da sala de estudos nos trouxe as notícias da eleição e renúncia de Jânio Quadros. A Alemanha levanta o muro de Berlim, único buraco existente na “cortina de ferro”. Os Estados Unidos não conseguiram derrubar Fidel Castro com a investida da “Baia dos Porcos”.

Os eventos de final de ano repetiram-se espetaculares.  Acresça-se às festas de formaturas, congratulatórias e passeios, o tão esperado leilão. Não fiquei atrás na pontuação adquirida durante o ano. As notas mensais das disciplinas bem como alguns títulos de campeão em futebol (eu sou goleiro), participação em caça às cobras e insetos me facilitaram poder arrematar lindas prendas no leilão. Muitos dos prêmios já teem destino certo: meus irmãozinhos em Juiz de Fora. Vou viajar de férias. Depois de dois anos sem vê-los e aos meus pais a saudade está apertada.

O acontecimento mais importante, no entanto, está na mudança de seminário, digo, juvenato. Foram extintas as séries inferiores do ginásio aqui em Mendes. O clima de despedida reina entre todos nós. O ano de 1962 será vivido em Uberaba-MG lá no triângulo mineiro. Das férias com a família já seguirei para o novo destino.

A despedida tem um gostinho de até breve. Em 1963 estarei de volta para fazer o 3º ano ginasial. Mas de qualquer forma há sentimentos de insegurança pelo desconhecido.

Para a minha ida às férias tive a sorte de pegar uma carona em um Oldsmobile do pai do Halrey, colega e conterrâneo meu. Papai não precisou e acho que nem poderia vir me buscar.

Rever meus parentes foi de uma alegria imensa. Mamãe ganhou sua primeira geladeira, Frigidaire, mostra de que papai financeiramente está melhor. Meus irmãos cresceram demais. Passarei com todos vinte dias muito legais. Inclui-se aí o natal. Procuro fazer minhas preces matinais, vesperais e noturnas; tenho um manual de férias a preencher. Não posso esquecer a disciplina religiosa, na medida do possível, indo às missas diariamente. Não é difícil. Papai continua fiel aos velhos costumes. Só que da igreja já vai direto aos Correios.

Volto para casa e procuro interagir, não mais como um molecote como dantes. A vizinhança e a farta parentela me convidando para cafés e almoços. Se antes de seguir ao seminário já me tratavam como “padre”,  é fácil imaginar agora como sou tratado. E por ser referência tenho que fazer comportamentalmente por onde.

Continuo sendo o xodó da vovó Lídia, para ciumeira do outros setenta netos.

Ganhei dez contos de réis do vovô João e aproveitei para comprar um lindo pintinho de um vendedor lá na estação Central do Brasil. O bichinho amarelinho e frágil me cativou ao primeiro olhar. Custou um conto de reis. Papai colocou um cesto de palha bem grande para acomodar o pobrezinho. Pia o dia todo, apesar do fubá e do milho pilado à sua disposição.

Aconteceu um acidente, a Dinha, prima velha que mora com a mamãe pisou no “Lamparina”, apelido que papai colocou no pintinho. O bichinho quebrou a asa mas papai encanou-a. Tomara que o coitado não sofra muito embora esteja piando muito mais.

Conforme combinado, mais uma vez o pai do Harley nos conduzirá ao destino: Belo Horizonte. Ficaremos alojados no colégio Marista da capital mineira aguardando os outros juvenistas que como eu estamos sendo transferidos para Uberaba. Desta vez não vamos de carro, mas de Litorina, trem de um só vagão, rápido e silencioso.

Após as já conhecidas despedidas, chorosas e saudosas por parte principalmente da mamãe, seguimos viagem. Lá pelas tantas, mergulhado nos meus pensamentos, dividido entre querer encarar as novidades da vida e lamentar a repetida separação dos meus amados familiares.  Noto que o balançar do trem entre trilhos me alerta par uma lembrança. Não sabia bem qual. Ah! Não poderia ser outra coisa: a similitude dos ruídos das rodas do trem com o piado do “Lamparina”. Verto lágrimas de saudades.

A seguir: 1962 – Casa nova, vida nova.

No dia: 08/08/09

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte XIII

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CaninanaMudanças em vista

O ano escolar começou bem cedo. Tenho uma mesa de estudos com tampa de levantar onde guardo meus livros. Um ratinho branco disputa um lugarzinho entre os meus objetos escolares. Meu mascote recebe todos os dias sua ração de pão, bolacha e água. Levo-o para tomar sol às horas de recreio. Muitos são os animais de estimação adotados por colegas. Um tem uma pequena cobra cipó, verdinha que faz gosto. Outro, uma aranha tarântula, peluda, enorme. Meu vizinho de estudos tem um jeco, pequeno camaleão que troca de cores quase instantaneamente. Atrás do galpão dos banheiros temos vários viveiros de cobras que ficam aguardando o momento para serem mandadas para o Instituto Butantan. Recebemos soro anti-ofídico em troca dos espécimes que para lá enviamos. A floresta que nos circunda é rica de ofídios: jararacas, urutus, principalmente a urutu cruzeiro e cascavéis. A mais linda de todas é a caninana. Não é venenosa. Tem lindas escamas amarelas, pretas, verdes e vermelhas.

Outro dia fomos visitados por caravana de alunos e familiares Maristas do Rio de Janeiro. Um dos senhores da comitiva estava a filmar-nos em nosso dia a dia. Eu portava a caninana enrolada no meu braço quando ele se aproximou. Para minha infelicidade, naquele exato momento  caiu um cisco em meu olho. Uma semana depois  mandaram-nos a fita que foi exibida antes do filme do mês. Eu estava piscando e tentando explicar a origem, nome e dados do animal. Ficou hilário. A platéia riu a valer.

A  sala de exibições dos filmes fica no porão abaixo da capela. Cabe umas trezentas pessoas. Tem palco e é lá que são apresentadas peças teatrais.    Quem cuida tanto das projeções dos filmes como do teatro é o Irmão Constantino. É também nosso fotógrafo. Graças a ele tenho fotos do final do ano passado. Fotos oficiais com todos os colegas. Nunca vi o Irmão Constantino com cara fechada. Sempre solícito, nos recebe sempre com muito carinho. É nosso professor de matemática.

Uma coisa interessante: foi instituída uma tabela de valores para todas as atividades aqui no juvenato. Como se fosse dinheiro que vamos juntando durante o ano. Para as notas das provas mensais temos valores que vão sendo acumulados em nossa caderneta. Se participamos de uma gincana, acumulamos pontos se formos vencedores. Os campeonatos de jogos, tanto de campo quanto de salão tem sua pontuação específica. Disseram-nos que ao final do ano o acumulado servirá para adquirimos objetos que serão leiloados. Isso nos causou um grande frisson. Todos participamos de tudo. Quero ver o resultado. Até quem pegar cobras para o Butantan vale pontuação. Conforme a raridade delas varia o valor.

O mais legal é participar da turma de entomólogos do Irmão Zeno Camata. Estamos formando um museu de insetos. Aprendi a tratar os insetos para a mumificação. Muitos deles  são compartilhados com outros colégios Maristas espalhados pelo mundo. Exportamos os insetos em caixinhas de madeira de “mate leão”, entre camadas de algodão.  O cheiro do formol é muito saliente. Tem um inseto que dá uma alta pontuação. Só o vimos no catálogo. É o “moleque da bananeira”. O bixinho tem uma aparência humana se colocamo-lo em pé. É uma verdadeira fixação querer conseguir um espécime.

No salão de estudos, pelas oito horas da manhã ouvimos o repórter Esso. O Irmão Claudino nos permite acompanhar o noticiário diariamente. Ficamos sabendo que Kruschev mandou erigir um muro dividindo Berlim ao meio. Pobre Alemanha. Fidel Castro se fixa no poder cada vez mais. Yuri Gagarim, astronauta russo representa o primeiro homem a subir ao espaço sideral. Não gostamos da falta de respeito quando ele declara que “não vira Deus” no espaço celeste, numa reafirmação do ateísmo russo.

O ano está passando rapidamente. As noticias de casa são tranqüilizadoras. Papai, agora empregado dos Correios e Telégrafos transmite mais estabilidade à manutenção do seu lar.

Noticias ruins estão pairando pelo ar. O Juvenato vai fechar-se às turmas menores do ginásio. Os primeiro e segundo anos do ginásio não ficarão mais em Mendes -RJ. Isto quer dizer que vamos ser transferidos para Uberaba-MG por conta da inauguração de novo Juvenato no Triângulo Mineiro.

As mudanças carecem ainda de confirmação. Se ocorrerem, maior perda terei, já a tive em me separando dos companheiros no ano anterior e agora me afastando do cantinho que adotei como minha segunda casa.

Proximo capitulo: 1961 – Mais um ano que se finda.

No dia: 24/06/09

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte XII

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LONGE DOS OLHOS ou,  NEM SÓ DE PÃO…
       maracana1Estou chorando desde que aqui cheguei mas não são lágrimas de saudades nem tampouco de crocrodilo. Estou acometido de grave alergia nos olhos devido o cheiro e fumaça exalados pela Fábrica de Cigarros Souza Cruz, vizinha do colégio onde me encontro hospedado. Quando nos afastamos para um passeio longe da Tijuca e especificamente da Rua Conde do Bonfim, volto à normalidade. 

      A piscina, campo de futebol e outras atividades, enquanto na referida hospedagem,  não estão sendo absolutamente aproveitados, sequer consigo abrir os olhos.

 

      Alvissaras, hoje vamos subir o Pico da Tijuca e amanhã jogaremos em pleno Maracanã.  Em vista de o gerente atual do maior estádio do mundo ser ex-aluno Marista tivemos o privilégio de jogar uma pelada. O único problema é que estão jogando remédio no gramado. Por esta razão só utilizamos a metade do campo. Eu estou me habilitando em ser goleiro, dos bons.

 

      Visitas às praias principais, ao zoológico e museu da Quinta da Boa Vista, às Igrejas da Candelária e da Glória no Aterro, escalar o Corcovado, andar no Bonde de Santa Tereza, estas e tantas outras atividades estão preenchendo os poucos dias de nossas férias.

 

      Realmente não sinto mais a saudade familiar, aliás, já não sentia antes porquanto as atividades do internato não nos permitem parar para pensar.

 

      Voltamos hoje para Mendes, nossa casa, nosso lugarzinho querido, o juvenato.

 

      Neste retorno não tive boas notícias. Embora tenha tido muitas dificuldades no ano letivo por conta de não conseguir acompanhar os colegas oriundos de diversos colégios particulares, principalmente Maristas,conseguira passar do curso de admissão ao primeiro ano ginásio com a nota mínima “seis”. O que fiquei sabendo somente agora é que o Irmão Zeno, nosso reitor, escrevera ao papai dias antes de nossas lautas férias. A resposta só agora recebida me trouxe o conhecimento do teor. Pedira ele ao papai autorização para que eu repetisse o período escolar por conta de tomar maior base para enfrentar o duro ginásio do internato. Autorização dada.

 

      Uma peculiaridade no ensino a que eu me exponho neste colégio é de nós não sermos somente aprendizes comuns mas, e principalmente, de formarmos futuros mestres. Daí a exigência do meu superior.

 

      As alegrias das férias foram-se como por encanto. Tinha me enturmado com colegas tão especiais neste primeiro ano e agora além de separados do convívio mais íntimo da turma ainda teria que dividir as atenções com colegas novatos e menores. Enfim, tangido pela obediência, virtude muito apreciada no ambiente em que me encontro, aceito a determinação. E a vida continua…

 

Cap XIII – Mudanças em vista…

No dia: 13/06/09

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte 11

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As férias se aproximam

pico-da-tijuca O ano, ainda para mim cheio de novidades, passou rápido. Papai e mamãe se revezam nas cartas. Estranhei no começo que a correspondência era-nos entregue aberta. Soube que o reitor faz isso para evitar que remetentes mal intencionados busquem minar as vocações religiosas ainda florescentes. À cada missiva a dor da saudade é revivida. Ainda que imerso em ambiente onde todas as necessidades são supridas, eram fortes as lembranças da meninice lá em casa sem compromissos muito sérios senão das brincadeiras de bolinhas de gude, soltar pipas com a carretilha que vovô João construíra para mim, as piculas e brincadeiras de roda. Embora recordasse que eventualmente tinha obrigações proporcionais à meninice: levar o almoço do papai e vender o jornal na porta da igreja, com certeza era muito mais branda do que levantar às seis da manhã e enfrentar as obrigações pertinentes a um internato.
As noticias de lá também não estão muito alvissareiras. Mamãe está acometida de mal nos rins. Minha irmã Conceição, mais nova que eu, está incumbida de cuidar dos manos mais novos. Papai conseguiu um emprego de carteiro nos Correios e Telégrafos por conta de ter sido pracinha na segunda guerra lá na Itália, ex-combatente que fora. Nas horas de folga continua costurando para suprir as necessidades da casa.
É com este quadro que tenho que decidir rapidamente o que fazer. As férias de dezembro estão próximas. Serão trinta dias em casa. Tenho que escrever para papai a fim de que venha me buscar e trazer de volta. O prazo para isso é curto. Os correios levam dias para as trocas de correspondência. No entanto não levei muito tempo para deliberar a dolorosa a decisão: não iria de férias. Com isso, papai em novo emprego, não precisaria se ausentar nem tampouco arcar com as despesas de viagem. E pronto.
Ao invés de escrever que não ia de férias, omiti-lhes que elas existiam. E fiquei junto com uns vinte colegas, dos cento e tantos existentes, sem viajar às nossas terras natais.
Se por um lado eu e os colegas ficantes não pudemos gozar as delícias do ninho familiar, nossos superiores compensaram-nos com uma grande surpresa: iríamos passar as férias na cidade do Rio de Janeiro capital da Guanabara.
Os preparativos para tal empreendimento se fizeram necessários.

Arrumei pequeno enxoval conforme indicação dos superiores e partimos de ônibus pertencente ao Colégio Marista São José do Rio onde ficamos alojados.
Tudo novidade para mim: o cheiro do mangue, logo que entramos na grande planície da baixada de Duque de Caxias bem como o burburinho de uma grande capital.
Estamos hospedados no grande Internato São José na Rua Conde do Bomfim na Tijuca.
Não sei o que me acometeu. Estou espirrando muito desde que cheguei.
A noite está péssima. Os espirros foram intermitentes.
O dia de amanhã promete. Vamos escalar o Pico da Tijuca, o maior da cidade.

Cap XII – Longe dos Olhos…

No dia: 31/05/09

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte X

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Meus 12 anos

aniverario        Três meses passaram tão rápido e ontem, dia da mentira, recebi a terceira carta do papai. Mamãe também escreveu uma página. À noite, na cama, chorei. Hoje acordei triste. Lembrei-me da carta de mamãe. Senti em seus olhos, escrevendo, lágrimas pela distância do filhote mais velho. Hoje é meu aniversário. Faltou ser acordado com um beijo dela. Aqui, ao contrário, o corre-corre matinal. Pelo pouco tempo talvez para estar pronto ou a falta de uma atenção personalizada, ninguém veio me dar os parabéns. Foi o meu mais triste dois de abril vivido até hoje. Estou completando 12 anos. Não que papai pudesse comemorar aniversários, ainda mais de uma prole de oito. Mamãe, porem sempre nos brindava à noite com os pingos de chuva, bolinhos encantadores, de trigo, fritos e passados ao açúcar com canela. Não haveria de faltar um refresco de baunilha ou limonada com bicarbonato para dar um gostinho de soda limonada da José Weis.
       Estou me enturmando legal. Tenho colegas com os quais me afino. Tem o Francisco Ozanan, o Otoni, o Dirceu, Argemiro e Sheib. Sem falar no Nilton de Carandaí, o Osmar de Patos de Minas, também o Fiúza e tantos outros que como eu, longe da família, nos elegemos irmãozinhos.
      A rotina de um colégio aqui é sempre quebrada com as tardes de jogos às quartas e aos domingos e acampamentos lá no Tangarás, linda grota no meio da floresta. Os passeios disparados mata a dentro tentando acompanhar os passos de sete léguas do Irmão Claudino.
      De quando em quando piquenique em fazendas e cachoeiras. Sou sempre voluntário para trabalhar na cozinha. Somos os privilegiados que seguimos de caminhão. Os outros, a pé atalhando vales e montanhas. Quando o local é distante, a cozinha vai na frente. O caminhão volta a pegar o restante da turma. Desta forma aproveito por mais tempo os locais visitados. E como mais também. Fome de leão. Penso nos manos. Como estão lá em Minas? O que comerão hoje? Aposto que irão cantar parabéns pelo meu aniversário.
     Já estou me tornando um ás em previsão do tempo. Lá em cima do telhado dos noviços tem um catavento com os pontos cardeais. Já sei que se a brisa está soprando de leste é chuva na certa. Consigo acertar com antecedência se vai chover no dia seguinte ou não. Com isso me adianto em saber se um piquenique dará certo.
       O aproveitamento nas aulas está razoável, apesar das dificuldades de acompanhar a turma. Não sou dos últimos, mas estou lá na rabeira.
      A novidade é que ingressei no coral. Cantamos em apresentações e nas missas solenes dominicais. Sou soprano ou primeira voz. De vez em quando dou umas arranhadas. Dizem que estou que nem canarinho: mudando a voz.
     Está se aproximando as férias de julho. O que mais está nos movimentando são as festas de São João.
        fogueira-de-sao-joaoPróximo dos campos de futebol tem um espaço aterrado muito grande. Poderia dizer, sem erro, que caberia outros dois campos bem grandes. Foi fincado um tronco de cipreste de uns 15 metros aproximadamente. Em torno deste marco está sendo trançada uma fogueira de árvores secas, caídas na floresta. Os encarregados da montagem são os alunos do juvenato, sempre os maiores da quarta série ginasial. Utilizam juntas de bois par arrastar os grandes paus.  Os noviços e postulantes, também participam. Cada qual em seus turnos por não podemos nos encontrar. Nem podemos nos falar quando nos cruzamos nos corredores. Há uma regra que não vi ainda ser quebrada. Cada qual no seu canto e ponto final. Ah! sim, a festa. Lá na “minha” rouparia foram guardadas enormes caixas com fogos de artifício. Doação dos proprietários da fábrica de fogos Adrianino, lá de Vassouras. São nossos benfeitores. Sempre estão aos domingos na missa das dez. Teem sítio próximo daqui. Sei que quando voltam pra casa levam sacos de verduras da grande horta que fica do lado da capela.
       Junto com uma equipe estou ajudando a fazer as divisões dos fogos. Os rojões e foguetes em sacos para os maiores. Os menores ficam com os estralos e bombinhas. Muito frisson por conta do evento.
       Lá no alto do pau, no meio da fogueira quase pronta, colocaram um boneco recheado de foguetes. Dizem que é a cara do Fidel Castro, boneco barbudo. Parece que é o sujeito que invadiu Cuba. Não entendo muito disso. Mas que vai ser bonita a lambança das explosões, isso vai.

 

XI Parte – As férias de final de ano

No dia: 28/05/09

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte IX

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Dificuldades à vista.

O curso de admissão em período de um ano é o passaporte para o ginásio. Senti de imediato a pressão dos estudos. A maioria dos meus colegas, raras exceções, tem origem nos colégios maristas provenientes dos estados de Minas, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Este Juvenato só atende à Província Centro-Leste.

     Em razão do elevado grau de estudo dos colégios de origem dos meus colegas e eu ter vindo de grupo escolar, as dificuldades são grandes.
O tempo para os estudos é o que ocupa a maior parte do dia. Dividimos as horas em sala de aula, salão de estudos, refeições, recreação e orações, incluídas a missa diária e as reuniões no oratório, logo após descer do dormitório e antes de deitar.
     O gostoso, aprendi logo a valorizar, é o recreio. Jogos de todos os tipos. Dos exercícios físicos aos de mesa, intelectuais.
Ao ar livre temos o vôlei, daí as múltiplas redes entre os jambeiros que me chamaram a atenção quando aqui cheguei, rúgbi, piculas, malha, bola ao mastro, bochas. Dos jogos de salão temos o xadrez, damas, ping-pong, carteados, quebra-cabeça.
      Conheci hoje um colega de admissão, Jorge Cheib. O cara é bom em xadrez. Ninguém consegue ganhar dele. Corre à boca pequena que ele foi campeão mineiro na modalidade infantil. Vou colar nele. Quero aprender, ser enxadrista, soa bonito.
     Fiz logo amizade com um cara legal, o Otonni. Tem habilidade com as mãos e um canivete bem afiado. Executa trabalhos em miniaturas de madeira que não tinha visto ainda alguém poder fazer. Além de ser um sujeito simples e simpático, mostra-se ser um colega interessado em me ajudar nas dificuldades matemáticas.
     O engraçado é que a adaptação, natural ou planejada pelos superiores, vai se dando rapidamente. Descobriram em entrevista, que sei responder a missa em latim. Afinal de contas sou filho de um sacristão e daí guindado ao grupo de coroinhas foi fácil. Atuo nas missas solenes das dez da manhã aos domingos. Vestido com sobrepeliz, uma capa vermelha com babados esvoaçantes, mais pareço um querubim. Papai iria gostar se me visse.
     Outro atributo logo descobriram também em mim: filho de alfaiate. Filho de peixinho… Lá fui eu tomar conta da rouparia. Uma sala comprida, é a primeira porta do comprido corredor das salas de aula. Prateleiras repletas de calças, camisas, blusas, sapatos e suéteres, novos e usados. Tudo doação dos alunos ricos dos colégios cariocas maristas. Minha responsabilidade é catalogar as peças por tamanho. Pregar aqui um botão faltoso, ali um cerzido. Acolá um remendo. Uma sala inteirinha minha, com direito a chave no bolso.
     De “meu” posto de trabalho, sinto um cheiro adocicado vindo da sala do guaraná. Companheiros mais velhos manipulam uma velha máquina de engarrafar refrigerantes. Vão ser servidos no domingo de Páscoa.
     Aqui todos temos funções, umas trocadas mensalmente, outras fixas como a minha de “aprendiz de alfaiate”.
     Os serviços de limpeza todos feitos pelos alunos em pátios, dormitórios, banheiros e salas de aula. Tudo muito limpo e organizado por nós mesmos.
Apesar das dificuldades nos estudos, estou me saindo bem. À disciplina de horários foi fácil de me adaptar. As saudades do passado vão se esvaindo como acobertadas por um vaporoso véu.

Parte X – Meus doze anos.

No dia: 22/05/09

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte VIII

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 Longe dos olhos…

Não sei quanto tempo permaneci sentado até que esgotado das lágrimas os soluços cessaram.

Retomei a estrada ladeira acima. Tudo era novidade para mim. Até o sentimento que oprimia ainda em meu peito. Não me recordava de ter chorado antes. Exceto, é claro, pelas surras merecidas até os seis anos de idade. Menino peralta, não escapara das “prestações e conta” no retorno de papai à noite. Mamãe não batia, quando muito uns bons beliscões que doíam mais no ego que na pele. Então chorava miudinho, mas parava logo, quase sem lágrimas, porque “homem não chora”. Hoje me descobri em nova situação: “molenga”. seria um frouxo?

Os sons que ouvia agora, subindo aquela estrada, carroçável, íngreme, também os eram novos para mim. Os assobios de pássaros desconhecidos e o correr do córrego cristalino, o mesmo que alimentava a cachoeira vista quando de minha chegada ao seminário.

O cheiro então! Misto de água enferrujada com folhas mortas. No mais o silêncio, acho que mais de solidão do que falta de ruídos.

Após uns quinze minutos de subida deparei-me com um panorama exuberante: Uma grande clareira fora aberta na floresta. Via-se um corte de quinze metros de altura no morro, certamente usado par o aterro de três grandes campos de futebol. Um de tamanho oficial, um mediano e outro pequeno. Nas divisões dos espaços haviam enormes eucaliptos sendo um deles de altura descomunal. Ao fundo uma grota onde dois caminhos largos que ladeavam os campos  para lá se dirigiam.

Descobri que para os esportes havia uma classificação diferente da dos dormitórios. Dividiam-nos em grandes, médios e menores. Não podíamos nos misturar. Por qual razão assim procediam ainda não atinara.

Ao ser notada a minha presença, um religioso, batina levantada nas laterais e presa ao cinto de cordas, veio ao meu encontro. Apresentou-se como Irmão Claudino, o nosso regente. Engraçado. Na perspectiva em que me encontrava não pude fugir à comparação. O moço, beirando aí trinta e cinco anos, mais de dois metros de altura, fazia par com o eucalipto maior ali plantados. Nominei de imediato a árvore de “Irmão Claudino”.

O Irmão regente era o responsável por nos acompanhar em todos os deslocamentos. Dos alojamentos ao oratório, deste à capela para a missa, dali ao refeitório e deste ao salão comum de estudos ali o religioso permanecendo em local elevado, sentado em sua escrivaninha. Só se via livre de nós ou nós dele quando nos dirigíamos às salas de aulas. Mesmo lá, de quando em vez, o tínhamos como professor de matemática. Enfim, um vigilante contumaz. E devia ter lá suas razões com um bando de adolescentes.

Joguei futebol, corri, me esbaldei. Muito diferentemente, certamente, de lá de casa, quando corria ladeira acima em brincadeiras de picula no Morro Fantasma, favela que ficava atrás da nossa rua. Aqui espaço aberto, salubre e limpo e sob a vigilância do… irmão regente!

Fui me integrando ao ambiente. Nos dias seguintes pude apreciar a chegada de novos colegas. Uns, antigos alunos retornando das férias anuais de quinze dias com suas famílias, outros, novatos como eu.

Tinha chegado àquele lugar no 12 de janeiro de 1960. Vinte dias depois deu-se início ao período letivo.

As lembranças de papai e mamãe, de meus sete irmãos, de vovó Lidia, dos primos e dos colegas de rua iam-se desbotando. As atividades constantes não me permitiam espaço para alocubrações. Exceção feita à hora de deitar que, apagadas as luzes, ainda teimavam em brotar lágrimas à algumas lembranças. O sono era o meu reconforto.
Parte IX – Dificuldades à vista.

 
No dia: 10/05/09

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte VII

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         A PRIMEIRA GRANDE SEPARAÇÃO

 A minha primeira noite separado dos meus pais não foi de toda ruim. Estava cansado e, embora minha cama fizesse parte de outras dezenas em grande dormitório ainda vazio, dormi pesado. Meu cicerone, aluno do grupo dos maiores, deslocou-se para o terceiro andar dos maiores, acima do nosso. A graduação era feita por idade somada à colocação da turma ginasial que se pertencesse. Seriamos os juvenistas do admissão, quinta e sexta série. Os maiores eram quase todos da sétima e oitava séries. Todos juntos perfaríamos duzentos aproximadamente.

 

        Acordei no domingo muito cedo, escuro ainda, seis e trinta da manhã. Pediram-nos pressa para a missa das sete. Da fila de deslocamento fui convidado a ficar lá atrás, na capela, junto com papai e mamãe que já me aguardavam.

 

         Minha atenção toda é para com a mamãe. Demonstrou neste primeiro contato uma satisfação incomum. Não sei se por me rever próximo dela ou se já se sentia mais confiante pela análise de leoa que aprova o novo ninho do filhote.

 

      Assisti a missa. Comungamos. Fui tomar café com eles no refeitório dos hóspedes.

 

        O acesso ao ambiente que agora eu me encontrava era vedado aos alunos do juvenato, exceção feita quando acompanhando familiares visitantes. Entre a capela e o refeitório para o café atravessamos um pátio, quadrado, ajardinado, via-se que finamente tratado por mãos zelosas. Do lado direito, à leste, os quartos individuais de velhos religiosos que se recolhiam a asilo pela idade avançada. O lado oeste, grande construção destinava-se aos postulantes e noviços. Os primeiros para  o curso do primeiro ano científico. Os segundos, já com os votos de obediência e usando batinas, dedicavam os dois anos restantes aos estudos laicos e teológicos. Após isso mais um ano de estudos como escolásticos, somente dedicavam ao aprofundamento religioso. Completar-se-ia  os outros dois votos:  pobreza e castidade. Papai foi me repassando, como bom guia, as explicações que o próprio reitor lhe informara de véspera.

 

       Gozamos juntos agradável manhã. Franquearam-nos todos os ambientes. O curral, pocilga, criatório de coelhos, apiário, o pomar, ah! o pomar. Linda colina despontava por detrás do grande galinheiro. Um caminho sinuoso entre pés de laranjas, mexericas e jamelões, ainda carregados de remanescentes frutos de fim do outono, nos levava a uma linda capela em forma de gruta onde jazia a imagem de Nossa Senhora de Lourdes lá no cimo da elevação. Papai e mamãe, ele congregado mariano, ela ex filha de Maria,  aproveitaram para prece sentida pedindo que a santa procurasse guiar os passos do filho que hora soltava-se da ninhada.

 

        Almoçamos juntos ainda desta vez. Logo após a refeição Irmão Zeno, o reitor, vem me informar que uma tarde esportiva estava sendo preparada para os alunos chegantes. Mostrei-me entusiasmado… verdadeiro ator mirim. Sabia que papai e mamãe em seguida partiriam de volta às Minas Gerais. O motivo que me trouxe ali, ser menos um às despesas lá de casa, surgiu à minha mente e não titubeei. Fiquei firme. Mostraria à mamãe a minha grande satisfação em estar estudando, mesmo que longe deles. Subi ao alojamento e me aparamentei de jogador. Tudo novinho, calção, camiseta e chuteiras com meiões que iam ao meio das coxas. Mostrava-me eufórico, vibrante. Despedi-me de papai e de mamãe que já não escondia as lágrimas. O reitor indicou-me a direção do campo. Teria que subir o morro detrás do grande galpão e seguir pela estrada que iria me levar ao ambiente dos esportes. E assim fui às carreiras.

       Já alcançada a estrada apontada pelo superior, acima do telhado do galpão dos banheiros procurei uma brecha para ver, dentre o farto bambuzal  papai e mamãe que já se afastavam na charrete em direção à saída da fazenda. Em segundos perdi-os de vista. A pseudo euforia não mais era necessária. Sentei-me no colchão de folhas secas. Escondido e sozinho de todos chorei copiosamente a minha primeira grande perda.

 

Parte VIII – Longe dos olhos…

No dia: 06/05/09

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte VI

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Cachoeira

UM MUNDO NOVO

O trote do animal  nos conduzindo ao interior da “fazenda”  tem para mim uma conotação de despedida com o meu passado. A cada curva me parece um convite a desligar-me da meninice vivida até então. Papai e mamãe apertam, ambos, minhas mãos. Não sei se papai está tentando fingir nada sentir. Mamãe, taciturna, não esconde a tristeza que lhe vai n’alma; ainda há pouco apertara , sem perceber, minha mão, num sentido de posse de algo que está por perder.
Desde a porteira de onde fomos recebidos até aqui,  calculo  já percorremos uns bons três quilômetros. Do lado direito da estrada percebo várias fontes d’água a escorrer dos morros repletos de alta vegetação. Do lado esquerdo, de quando em vez, dentre os arbustos quase serrados, noto um vale, ora coberto de pastagens ora de áreas cultivadas.
Finalmente chegamos. Ladeamos longa construção com diversas janelas, grande casario fechado aos nossos olhares. Entramos após breve aclive a um pátio à frente de prédio de três andares. Neste espaço um  gramado ao centro, tendo de um lado sapotizeiros e d’outro enfileirados,  jambeiros cujos troncos grossos seguram redes de voleibol. Mais além destes últimos um grande galpão encostado ao pé de montanha que ali tem começo. O interessante foi identificar dezenas de portas  ao fundo deste pavimento. Percebo serem banheiros enfileirados, não há dúvida. O som de uma cachoeira  distante uns cem metros à direita deste ambiente faz-me sentir uma realidade nunca antes vivida. Um mundo novo, diferente e desconhecido inicia-se para mim neste momento. Analiso outros detalhes enquanto o condutor alinha a charrete debaixo de uma passarela coberta que faz a ligação do galpão dos banheiros com o prédio de três andares.
Demonstra que já é praxe para o  nosso guia parar ali. Imediatamente aparece um “padre” de idade madura, que nos recebe com largo sorriso. Tem óculos de aros finos e redondos, ares de escritor, professor, eu diria.
Se identifica por Irmão Zeno Camata, diretor do “juvenato”.
Papai e mamãe que primeiro desceram da condução recebe os cumprimentos de boas vindas e apontam-me, um pouco afastado deles, como o novo candidato ao seminário.
Intuido em gestos por papai, aperto as mãos do prelado que muito atencioso desdobra-se nas boas vindas.

Feitas as apresentações, dá ordens ao cocheiro para que conduza as minhas malas ao dormitório dos menores. Adentra-nos por longo corredor no térreo do grande prédio, ladeado de portas envidraçadas donde percebo várias salas de aula com suas envernizadas carteiras.
Entramos em seu gabinete. É um ambiente rústico, sóbrio, diria sombrio, bem diferente da sala  enfeitada da diretora do meu ex-grupo escolar.
Faz-me sentar, após meus pais. Apóia-se em  cadeira de espaldar alto e fazendo as perguntas de praxe sobre a viagem passa a informar sobre o local que acolherá o novo aluno “juvenista”. Mamãe adivinha minhas dúvidas e pergunta o que é “juvenista”. Simpaticamente e demonstrando agrado responde que se trata de aluno de juvenato ou internato que acolhe candidatos para serem Irmãos Maristas. Nos olhamos sem entender muito. Não tivemos  muitas explicações na visita do padre, digo, Irmão, quando em Juiz de Fora. Segue-se maior explanação do bom homem: trata-se de uma organização religiosa que forma religiosos para a missão de educar jovens em todo o mundo. Eu iria iniciar os estudos no curso de admissão que antecede o ginásio.
Acho estanho, mas não dedico maiores atenções. Irmão, padre, vigário, bispo… para mim, vestiu batina é padre.
Depois de longa meia hora, justo quando ouvi burburinho de vozes quebrando o silêncio daquela clausura, somos convidados a sair do escritório e já no corredor, instado pelo reverendo, um rapaz de uns desessete anos ou pouco mais, se apresenta como aluno antigo, encarregado de me conduzir-me ao dormitório para que eu apossasse de cama e armário e me desfizesse das malas.
Combinamos nos encontrar mais tarde, indo papai e mamãe para outras bandas daquele imenso casario.

Parte VII – A PRIMEIRA GRANDE SEPARAÇÃO

No dia: 28/04/09

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte V

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A VIAGEM

Novembro e dezembro deste ano foram dos mais morosos que já vivi. Nos dias que antecederam outros Natais bastavam os possíveis presentes e principalmente a espera da Cesta de Natal “Columbus” que papai assinava pagando pequenas parcelas durante dez meses, para que a ansiedade surgisse. Relembro-me bem o gostinho dos patês do ano passado. Agora porém não são os sabores das nozes e amêndoas que mais anseio; papai recebeu ontem carta do Seminário. Não sei por que estava no remetente: “Juvenato São José” lá de Mendes no Estado do Rio. Devo apresentar-me no dia doze de janeiro para o início dos estudos.
Não é a viagem em si que me provoca esse frisson. Já estive na Guanabara algumas vezes desde os meus sete anos de idade. A família dos Faza, vizinhos de rua, imigrantes italianos como meus avós, sempre fizeram lotações turísticas ao Distrito Federal. Tomei banho em Copacabana, visitei duas vezes o museu da Quinta da Boa Vista e seu Jardim Zoológico e subi ao Cristo do Corcovado. Fui uma vez à Aparecida do Norte. Sou um cara viajado. Como eu disse, não é a viagem em si. É… como posso dizer… tocar minha vida sozinho. Na realidade procuro não pensar muito nisso não, mas não tem jeito: que o tempo está custando a passar, ah! isso está!
Acabei de receber o enxoval. Foram os presentes mais ricos que já tive até hoje. Ano passado ganhei um biblioquê. Não teve gosto de presente porque eu e minha irmã Conceição fomos juntos com papai e mamãe comprar os brinquedos das crianças, os outros nossos seis irmãos. Como sobrou uns trocadinhos pudemos comprar algo para nós também. Acabou esvaziando o sentido da surpresa no pé da árvore de Natal. Mas este Natal vai ficar na minha memória. Acho que na dos meus irmãos também. O cantinho da sala onde estava a árvore armada coube todos os agrados das crianças. A mesa da sala foi toda ocupada pelos embrulhos e pacotes para mim. Me chamou a atenção mesmo foi o olhar de curiosidade dos meus maninhos. Maravilhado fui desfazendo-os . Tinha-os de todas as cores. Do tipo de papel de embrulhar pão, só que coloridos. Nem os dos ternos que papai entregava não tinham aquelas cores. E fui desfilando um a um seus conteúdos. Já não eram só os olhos arregalados dos meus irmãos, era-os também os meus, de mamãe e de papai. A bondosa catequista fora encarregada horas antes de recolher das não menos caridosas benfeitoras os donativos para o futuro “padre”. Não poderia deixar de enumerar os regalos que desfilavam pela sala de mãos em mãos: sapatos pretos e marrons, gravatas, camisetas, calções, sungas, camisas de mangas longas e curtas, latas de graxa, tesourinhas e o que mais me surpreendeu: um par de chuteiras com travas, uma loucura de lindas, do tipo que Pelé usou na copa do mundo há dois anos atrás em 1958. E tantos outros objetos que papai foi obrigado a tomar emprestado duas malas das grandes para acondicionar tudo. Dia seguinte ao natal recebo três dúzias de meias buclê da Malharia São Jorge, do meu tio Ívano Tabet e minha tia Tieta, a tia dos olhos azuis e da berruguinha no rosto.
Carregar a bagagem até a Central do Brasil não é difícil para papai. Usando a bicicleta como sempre o fizera com os sacos de laranjas das idas às feiras dominicais, indo guardar sua condução na alfaiataria que ficava a pouca distância da estação férrea. O difícil mesmo é ter que sustentar o chororô da vovó e das tias, e por osmose as lágrimas de meus irmãos. Estou sendo corajoso e bravo, diria, agüentando firme o nó que aperta na garganta.
E lá vamos nós ,  eu, papai e mãe até Barra do Pirai de trem, maria-fumaça. Dali pegamos o ônibus até Vassouras e deste ponto, outro até Mendes. Antes de chegar à cidade, mais ou menos a meio caminho o chofeur já sabendo nosso destino fez parada em frente a entrada de uma fazenda. Uma charrete que fica de plantão no local nos leva a todos, mal acomodados, por estrada calçada com pedras disformes em caminho sinuoso, ora ladeando de árvores enormes, ora por moitas cerradas de bambu-açu.

Parte VI – Um Mundo novo.

No dia: 20/04/09

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – PARTE IV

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maos

Parte IV – Mãos caridosas

Que legal, vou poder andar na bicicleta do papai ainda hoje pela manhã. Acabei cedo a venda dos jornais na missa das sete horas. Início do mês de novembro, pessoal com grana. Entrego o dinheiro arrecadado para a D. Ana e vou logo para casa.

Novidades. Quero chegar em casa rápido. Estou aliviado, feliz, diria eufórico. Tenho boas notícias para papai e mamãe. A catequista esperou o meu comparecimento costumeiro em sua casa para me dar a boa nova: o enxoval estava garantido. No seu círculo de amizades contatara bondosa benfeitora que oferecera o enxoval completo de que eu necessitasse. Justo hoje o papai demorou-se nas compras dominicais; era seu costume fazer o arremate de final de feira. Trazia sempre na sua bicicleta na carregadeira trazeira um caixote pintado de verde lotado de bananas. Um saco cheio no quadro, apoiado no guidon e ainda duas sacolas, uma em cada lado. São legumes e frutas a preço baratinho. É como pode abastecer a voracidade de oito filhos. Muitas vezes vou com ele. É para aprender desde cedo, diz. Só que agora tenho que vender os jornais pelas manhãs de domingo para ajudar os missionários.

Papai e mamãe ficaram muito satisfeitos com a notícia. Papai disse  ainda que então ia fazer um terno e algumas calças sobressalentes. Puxa, estou ficando importante, até terno vou ter!

Os dias estão passando morosos. Continuo na minha rotina de criança: escola, brincadeiras com os visinhos de rua, reuniões familiares na casa da vovó Lídia. A primaiada indiferente quanto ao meu futuro. Os tios, sim, estes demonstram admiração pelo representante familiar nas lides religiosas. Tenho deles o desvelo do carinho. A vovó, beata devota de São Sebastião, demonstrou um certo dissabor em formas de resmungos. Não é por menos. Dos trinta de nove netos que possui sou o “chaleirinha”, o preferido dela. Nunca se deu ao trabalho de esconder de ninguém esta primazia.

 

Parte V – A viagem.

No dia: 13/04/09

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte III

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Parte III – O enxoval
 

 

Não consigo dormir. Já lá se vai a metade da madrugada. Abraçado ao travesseiro, totalmente coberto pelos edredons, frio intenso, a imagem do jantar, a conversa, as atenções todas dirigidas a mim. Tudo isso me excitou. Confesso ainda estar meio atordoado com toda a novidade. Mamãe deixou transparecer tristeza. Acho que são coisas de mãe mesmo porque papai era só alegria. Trocadas as necessárias informações papai desarrolhou uma velha garrafa de vinho do taberneiro Seu Tonico. Sopas servidas, devoradas. O homem, cruzes, o padre, foi-se embora.

Me lembro agora, é mesmo, tinha me esquecido: viajarei em janeiro. Estamos em final de outubro. Tempo bastante para o enxoval. Nossa, que significa isso? Amanhã cedo vou perguntar pra mamãe.

Não sei como dormi, sei o quanto: quase nadinha. Olhos ainda vermelhos fui, apesar do sono, o primeiro a chegar na cozinha. Mamãe como sempre já ligara o no novo fogão a querozene. O cheiro do combustível entra ardoso em minhas narinas. Mamãe se surpreende comigo, sempre o recalcitrante ao se levantar da cama. Vem de lá em minha direção e larga um quente, não costumeiro, beijo em minha testa. Agora noto que não são só meus olhos que estão vermelhos. Os dela além da cor de carmim, estão inchados. Acho que ela estava chorando, igual quando tinha suas enchaquecas. Me lembrei do seu olhar sizudo durante a conversa no final da noite. Acho que chorava já de saudades do filho mais velho que partiria em breve.

Serve meu café com o pãozinho que o padeiro, de madrugada ainda, deixou na janela.

Pergunto a ela o que era o tal enxoval. Responde-me que eram roupas e objetos necessários no novo colégio, seminário, que eu ia ingressar.

Fiquei calado, sem mais perguntas, só angústia. Roupas e demais objetos… Uniformes? Sapatos? O que mais seria? Puxa vida, logo agora que papai está praticamente sem trabalho! O que fazer?

Hora de ir para o Grupo Escolar.

Uai! Que está havendo? Fiz a inspeção da turma hoje e apesar de muitas unhas sujas e camisas amarrotadas não obtive nenhuma ameaça de me pegarem lá fora. Ao contrário, por onde passei os olhares eram de respeito. Até a minha professorinha peguei-a apontando-me à diretora e cochichando. Acho que já me consideram um cardeal.

Como é sexta-feira, vou passar depois da aula na casa da minha catequista. Vou pegar os jornais para vender na igreja domingo à saída da missa.

D.Ana é uma maternal tiazona. Solteira, dedica-se à nobre causa de ensinar religião. Dizem que é  hábito antigo. Ela já tem uns sessenta anos. Meiga, mãos tremosas, mas sempre afáveis. Voz também tremeluzente, muito emotiva. Mais uma que demonstrou pungente alegria pela notícia sobre minha ida para o seminário. Mas, nem sei porque, confessei a ela minha preocupação com o tal enxoval. Talvez eu nem pudesse completar o intento de tal aventura.

Parte IV – Mãos caridosas
 

 

jornaleiro02

No dia: 12/04/09

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte II

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Parte II – A visita do Padre

Cheguei em casa, felizmente, sem nenhuma tocaia da parte dos “unhas-sujas”. Estou almoçando mas não disse nada à mamãe sobre a visita do “padre”. Foi marcada para a noite quando eles, papai e mamãe, estivessem juntos. Até lá darei um jeito de avisá-los. Puxa vida! E não é que tive mesmo a coragem de me candidatar a ser padre? Onde será o seminário? Nunca vi padre com aquele crucifixo pendurado no peito, só o bispo, pelo menos não na nossa paróquia.

Acabei de entregar o almoço do papai. Enquanto ele degusta a bóia simples que mamãe tão amorosamente preparou, fico a tirar uns alinhavos de prova em um paletó de tergal inglês; especialmente o deste tecido o cuidado deveria ser maior. Tecido caro. Não posso ir enfiando a apontada tesourinha. Prejuízo seria enorme. E para ser redundante, um olho no terno e outro no padre, digo, no papai.

Acabada a frugal refeição, é costume de papai receber na singela alfaiataria, na hora do quilo, descanso do almoço, um que outro colega de ofício dos tantos que há na 7 de Setembro. Jogam umas duas mãos de “damas” do que costumam chamar “o clube dos paturebas”.

E eu de olho no pad… digo papai. Arre, essa palavra “padre” não me sai da cabeça.

Ufa! Finalmente, a sós. Arrisco, que não sou de meias palavras, indo diretamente ao assunto. Justamente na hora que papai ia se sentar à máquina de costura, esticando a mão em velho aparelho procurando a Radio Aparecida de quem era velho devoto, arrisco dizendo: “pai quero ser padre”.

Sob o ruído da rádio que não chegara a ser sintonizado mira-me estático com o olhar arregalado, surpreso. Por uns segundos senti o chão faltar sob o tamborete onde me quedava sentado. Em seguida abriu-me o mais largo sorriso que jamais havia visto naquela face amorenada. No segundo seguinte pude traduzir, item que eu esquecera, que do “congregado mariano” e “sacristão” não poderia proceder senão com a reação que agora presencio. E admirado pela novidade, já sentado, rádio chiando no alto da prateleira, recebe o resto do pacote, pronto, completo: “Um padre vai lá em casa hoje pra conversar com o senhor”. Assim, na tampa. E seja o que Deus quiser. E quis. Tanto que, voz embargada pela emoção cobra-me de onde tirara tal idéia e que estória era essa de padre lá em casa. Explicações todas dadas.

Não preciso dizer que as horas estão passando muito lentamente. Da tal visita tenho prenhes fantasias, miragens do que seria minha vida doravante. Isto é, claro, se houvesse da parte dos “velhos” o aprove necessário.

padre1Nesta noite não tem pescaria*. O sopão cheiroso, no capricho, denota a visita ser importante. Lá pelas tantas, aparece o religioso. Feitas as apresentações, ainda na varanda, aborda-se diretamente o assunto. Ao meu lado a pancada dos seis irmãos, o outro, o sétimo, nos braços da mamãe. Olhos arregalados, curiosos, não entendendo o que poderia proceder de tão diferente visitante. Ditos os preâmbulos e conduzida logo ao ambiente familiar da cozinha, já sentados à grande mesa, papai vai se inteirando de todos os detalhes. Eu todo atenção a todas as perguntas e mais ainda às respostas. Uma delas me chamou mais a atenção: a necessidade de um enxoval. Ué! Enxoval? Não vou me casar como a tia Rosa no mês passado?!

*(Leia neste blog o artigo: RELEMBRANÇAS)

Parte III – O enxoval.

No dia: 11/04/09

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte I

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bonde

Parte I – Terminando o primário


Ano de 1959 e estou terminando meu 4º ano primário. Tenho muitas dificuldades para isto. Fui acometido de Krupp, doença cruel que me deixara mudo por meses. Perdi aulas demais. Mas valeu o esforço de minha professorinha D. Maria Magela pelas aulas de reforço e boa quantidade de paciência comigo. Senhora distinta, mora em frente ao Grupo Escolar Batista de Oliveria, “entra burro e sai caveira”, trocadilho naturalmente cantado por nós próprios alunos. A escola fica no Bairro Costa Carvalho em Juiz de Fora, ponto final do bonde “Costa Carvalho / Centro”.
Ah! o bonde… quantas vezes consigo safar-me de apanhar de colegas, franzino que eu sou, por ter anotado o nome deles pelas unhas sujas e cabelos piolhentos. Faço parte do pelotão de saúde cuja obrigação é anotar o nome dos infratores imundos. Ao pongar, tomar carona no bonde, os sugismundos não conseguem me pegar… e vou levando a árdua função de dedo duro.
Tenho que chegar cedo em casa para o almoço e ainda levar a marmita para o papai. Geraldo é o nome dele. É alfaiate e como diversos outros colegas está passando por duras crises da concorrência: as lojas de roupas prontas, industrializadas. Ducal, terno feito de tergal, a roupa que não amassa, a tal do “senta… levanta… senta… levanta…”
Temos novidades hoje, uma visita inesperada de um “padre” que vai nos falar na sala de aulas. Uma parte do recreio foi “desperdiçada” com ele. Veio perguntar quem queria ir para o seminário. Extranho, apesar de eu ser coroinha na Igreja de São José do Botanágua onde o papai é sacristão, não sei o que deu em mim: levantei a mão. Dizem que fui o único “carola” a me candidatar em todo o Grupo Escolar.
Anotou meu nome e meu endereço. Vai fazer uma visita lá em casa para conversar melhor comigo e meus pais. Na volta pra casa fui pensando no que eu fizera. Já tenho 11 anos e terminando o primário não vejo perspectivas para meu futuro. Papai quase falido. O que me resta é continuar ajudando-o nos chuleios ou alinhavos das poucas encomendas que ele ainda consegue ter. Vender jornal, ah! lá nisso sou muito bom. Pelo menos vendo nos domingos todos os  cinquenta “Lar Católico” que D. Ana Reis, minha catequista, me dá. Passo todos às saidas das missas das oito e das dez horas. Ou então, quem sabe, pegar uns picolés do Seu Mauad, da esquina da São Geraldo com Sete de Setembro. Poderia ganhar uns bons mil réis.
Sou o mais velho dentre oito irmãos. Estou tendando saber agora, indo para casa, o que me fez levantar a mão. Duas razões, vou pensando: primeira, eu seria  uma boca a menos lá em casa, segundo, com certeza a mais imporante, ”continuaria estudando”, o padre tinha prometido.

Parte II – O Padre lá em casa.

No dia: 10/04/09