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MEMÓRIAS DE UM EX-SEMINARISTA – Parte XX

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cabelos-longos-e-negros

Férias… mas que férias!?

Seis meses me separaram dos familiares desde a última vez que os vi. Muita coisa nova me esperava.  Vovô Joanim  já não se encontrava mais conosco. Sua morte foi-me participada havia dois meses e só agora o fato teve relevância. Ao visitar vovó Lídia, a viúva, pude observar o vácuo deixado por ele. Homem simples, de fácil se dar, me adotara como seu colega de pescaria. Andávamos longos trechos pelos trilhos da Central do Brasil que margeava o Rio Paraibuna e íamos buscar  em pesqueiros “secretos” os petiscos do jantar. Agora o vazio.

Meus irmãos cresceram como nunca e exceto por um detalhe interessante, a cada vez que em casa me aportava,  tinha a sensação de tudo em casa estar diminuto. A moradia como que se encolhera.

A novidade mais importante foi a inauguraçã de uma casa bem vizinha à nossa.  Era uma construção nova  pertencente ao Conjunto JK , no local exato onde antes ficava pequena lagoa, objeto das minhas peraltices infantis.

A saudade do local de velhas lembranças, no entanto, logo se esvaiu. Uma figura está sendo a responsável por isso. O nome dela é Mercedes. Longos cabelos, negros e lisos. Mal pude ainda observar seus olhos. É moda os cabelos estarem caídos pelo rosto, qual burka natural. É linda. Tem a minha idade. Filha de numerosa prole sendo uma das caçulas. Já freqüenta nossa casa, amiga de minha irmã Conceição. Tão logo aqui cheguei veio se apresentar e  conhecer o visinho “padre”. Desde então me vi perdido em sensações e pensamentos nunca dantes experimentados. Um como fogo ardente queima-me por inteiro. Sinto-me estranho. Muito diferente do que sinto por meus pais, irmão e amigos.

Nunca foi tão gostoso ir à missa. Voltar junto com grupo onde ela estava ela era divinamente agradável.

Minha irmã, como soer deve acontecer com algumas mulheres, alcovitando, facilitava os encontros e reencontros. Meus pais, na santa inocência, tinham tudo como muito normal.

O pior é que o tempo dispara justo quando as coisas são boas e favoráveis. Os vinte dias das férias sumiram como por encanto.

Retornando à lide clausural já não tenho mais outros que não pensamentos à Juiz de Fora. Não me seguram mais razões outras que dantes me fixara tão longe dos meus.

Tudo me parece estranho. As luzes e os verdes deste lugar já não brilham nem colorem mais como dantes .

Iniciou-se o segundo período escolar do ano letivo com as atividades pertinentes. Como “terapia ocupacional” qualquer desforço pareceu-me inútil. Por muitas vezes estou sendo chamado à atenção às aulas. Estou sempre no mundo da Lua. ” Lua com cabelos compridos e olhos escondidos”.

Fui chamado a uma reunião particular com o Irmão Reitor. Não imaginava a que se atinha tal encontro. Os resultados escolares do mês em andamento ainda não tinham sido recolhidos. Seria ainda o assunto do cigarro nos bastidores do teatro?

Dia seguinte e após os afazeres matinais, preces e faxinas, sou convocado à tal reunião. Estou mais ansioso que apreensivo. Adentro o gabinete austero do Reitor. Sou convidado a sentar-me e ficar aguardando alguns instantes enquanto o mestre assina uns papéis.

Finalmente, após ler uma ficha que detivera à parte, inicia a conversa perguntando como estou. Respondo-lhe que “bem”. Dá uma espiadela na ficha, que certamente, agora tinha eu convicção, era minha. Diz querer saber o motivo de minhas preocupações atuais, ao que respondo evasivamente, e com sinceridade: “nenhuma”.

Perguntou-me como foram as férias, como encontrara a família, que locais eu visitara e quem eu conhecera.

Sempre fui muito sincero. A lição que papai mais evidenciou foi a de que nunca mentisse, fosse em que oportunidade fosse. Abri-me pois ao caro superior como sempre o fiz com papai.

O mestre me olhou com carinho e compreensão. Fez-me ver que o que sentia não era pecaminoso ou errado. Muitos que ao seminário chegavam, depois de algum tempo acordavam para outros sentimentos que não o do celibato e da reclusão. No entanto convida-me à oração e reflexão. Que permanecesse ainda o restante do ano em observação. Deixasse o tempo passar. Ao final do período em nova conversa decidiríamos, os dois, o melhor caminho a tomar.

Os dias foram rolando, devagar como carroça ladeira acima.

Agosto chegou e não deixei que terminasse. Pedi nova reunião. E expus minha vontade de partir.

Não houve oposição. Foi como se já se esperasse por este resultado. Só foi pedido tempo para uma troca de correspondência entre a Direção e papai.

Os valores necessários para a viagem chegaram com a resposta de papai.

Não obtive, como praxe, oportunidade para despedidas. Não podia ser o motivo ou estímulo a outras deserções. Muito menos pelos motivos supostamente aventados.

Voltei para o “mundo” no dia 5 de setembro de 1964.

Comigo acompanharam valores imensos. Dos Maristas tive a oportunidade de não só ter crescido como cristão, mas como verdadeiro cidadão, esta última virtude inseparável da primeira.

Não imaginava, no entanto, quanta influência teria estes pouco menos de cinco anos em toda minha existência.

Nota do autor:

A resolução  em encerrar nesta data estas pueris “memórias” prende-se ao jubileu de ouro (50 anos) de minha chegada ao Juvenato São José das Palmeiras na Cidade de Mendes – Estado do Rio de Janeiro.

Agradeço de coração às inúmeras postagens realizadas por leitores contumazes deste blog.

Em especial e em nome de todos os outros, nomeio minha gratidão

à “ Manhosa – Loba Virtual”  do (http://amanhosalobavirtual.blogspot.com)

e ao Shintoni  do (http://duelosliterarios.blogspot.com)


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janeiro 19th, 2010

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte VI

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Cachoeira

UM MUNDO NOVO

O trote do animal  nos conduzindo ao interior da “fazenda”  tem para mim uma conotação de despedida com o meu passado. A cada curva me parece um convite a desligar-me da meninice vivida até então. Papai e mamãe apertam, ambos, minhas mãos. Não sei se papai está tentando fingir nada sentir. Mamãe, taciturna, não esconde a tristeza que lhe vai n’alma; ainda há pouco apertara , sem perceber, minha mão, num sentido de posse de algo que está por perder.
Desde a porteira de onde fomos recebidos até aqui,  calculo  já percorremos uns bons três quilômetros. Do lado direito da estrada percebo várias fontes d’água a escorrer dos morros repletos de alta vegetação. Do lado esquerdo, de quando em vez, dentre os arbustos quase serrados, noto um vale, ora coberto de pastagens ora de áreas cultivadas.
Finalmente chegamos. Ladeamos longa construção com diversas janelas, grande casario fechado aos nossos olhares. Entramos após breve aclive a um pátio à frente de prédio de três andares. Neste espaço um  gramado ao centro, tendo de um lado sapotizeiros e d’outro enfileirados,  jambeiros cujos troncos grossos seguram redes de voleibol. Mais além destes últimos um grande galpão encostado ao pé de montanha que ali tem começo. O interessante foi identificar dezenas de portas  ao fundo deste pavimento. Percebo serem banheiros enfileirados, não há dúvida. O som de uma cachoeira  distante uns cem metros à direita deste ambiente faz-me sentir uma realidade nunca antes vivida. Um mundo novo, diferente e desconhecido inicia-se para mim neste momento. Analiso outros detalhes enquanto o condutor alinha a charrete debaixo de uma passarela coberta que faz a ligação do galpão dos banheiros com o prédio de três andares.
Demonstra que já é praxe para o  nosso guia parar ali. Imediatamente aparece um “padre” de idade madura, que nos recebe com largo sorriso. Tem óculos de aros finos e redondos, ares de escritor, professor, eu diria.
Se identifica por Irmão Zeno Camata, diretor do “juvenato”.
Papai e mamãe que primeiro desceram da condução recebe os cumprimentos de boas vindas e apontam-me, um pouco afastado deles, como o novo candidato ao seminário.
Intuido em gestos por papai, aperto as mãos do prelado que muito atencioso desdobra-se nas boas vindas.

Feitas as apresentações, dá ordens ao cocheiro para que conduza as minhas malas ao dormitório dos menores. Adentra-nos por longo corredor no térreo do grande prédio, ladeado de portas envidraçadas donde percebo várias salas de aula com suas envernizadas carteiras.
Entramos em seu gabinete. É um ambiente rústico, sóbrio, diria sombrio, bem diferente da sala  enfeitada da diretora do meu ex-grupo escolar.
Faz-me sentar, após meus pais. Apóia-se em  cadeira de espaldar alto e fazendo as perguntas de praxe sobre a viagem passa a informar sobre o local que acolherá o novo aluno “juvenista”. Mamãe adivinha minhas dúvidas e pergunta o que é “juvenista”. Simpaticamente e demonstrando agrado responde que se trata de aluno de juvenato ou internato que acolhe candidatos para serem Irmãos Maristas. Nos olhamos sem entender muito. Não tivemos  muitas explicações na visita do padre, digo, Irmão, quando em Juiz de Fora. Segue-se maior explanação do bom homem: trata-se de uma organização religiosa que forma religiosos para a missão de educar jovens em todo o mundo. Eu iria iniciar os estudos no curso de admissão que antecede o ginásio.
Acho estanho, mas não dedico maiores atenções. Irmão, padre, vigário, bispo… para mim, vestiu batina é padre.
Depois de longa meia hora, justo quando ouvi burburinho de vozes quebrando o silêncio daquela clausura, somos convidados a sair do escritório e já no corredor, instado pelo reverendo, um rapaz de uns desessete anos ou pouco mais, se apresenta como aluno antigo, encarregado de me conduzir-me ao dormitório para que eu apossasse de cama e armário e me desfizesse das malas.
Combinamos nos encontrar mais tarde, indo papai e mamãe para outras bandas daquele imenso casario.

Parte VII – A PRIMEIRA GRANDE SEPARAÇÃO

abril 28th, 2009

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte III

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Parte III – O enxoval
 

 

Não consigo dormir. Já lá se vai a metade da madrugada. Abraçado ao travesseiro, totalmente coberto pelos edredons, frio intenso, a imagem do jantar, a conversa, as atenções todas dirigidas a mim. Tudo isso me excitou. Confesso ainda estar meio atordoado com toda a novidade. Mamãe deixou transparecer tristeza. Acho que são coisas de mãe mesmo porque papai era só alegria. Trocadas as necessárias informações papai desarrolhou uma velha garrafa de vinho do taberneiro Seu Tonico. Sopas servidas, devoradas. O homem, cruzes, o padre, foi-se embora.

Me lembro agora, é mesmo, tinha me esquecido: viajarei em janeiro. Estamos em final de outubro. Tempo bastante para o enxoval. Nossa, que significa isso? Amanhã cedo vou perguntar pra mamãe.

Não sei como dormi, sei o quanto: quase nadinha. Olhos ainda vermelhos fui, apesar do sono, o primeiro a chegar na cozinha. Mamãe como sempre já ligara o no novo fogão a querozene. O cheiro do combustível entra ardoso em minhas narinas. Mamãe se surpreende comigo, sempre o recalcitrante ao se levantar da cama. Vem de lá em minha direção e larga um quente, não costumeiro, beijo em minha testa. Agora noto que não são só meus olhos que estão vermelhos. Os dela além da cor de carmim, estão inchados. Acho que ela estava chorando, igual quando tinha suas enchaquecas. Me lembrei do seu olhar sizudo durante a conversa no final da noite. Acho que chorava já de saudades do filho mais velho que partiria em breve.

Serve meu café com o pãozinho que o padeiro, de madrugada ainda, deixou na janela.

Pergunto a ela o que era o tal enxoval. Responde-me que eram roupas e objetos necessários no novo colégio, seminário, que eu ia ingressar.

Fiquei calado, sem mais perguntas, só angústia. Roupas e demais objetos… Uniformes? Sapatos? O que mais seria? Puxa vida, logo agora que papai está praticamente sem trabalho! O que fazer?

Hora de ir para o Grupo Escolar.

Uai! Que está havendo? Fiz a inspeção da turma hoje e apesar de muitas unhas sujas e camisas amarrotadas não obtive nenhuma ameaça de me pegarem lá fora. Ao contrário, por onde passei os olhares eram de respeito. Até a minha professorinha peguei-a apontando-me à diretora e cochichando. Acho que já me consideram um cardeal.

Como é sexta-feira, vou passar depois da aula na casa da minha catequista. Vou pegar os jornais para vender na igreja domingo à saída da missa.

D.Ana é uma maternal tiazona. Solteira, dedica-se à nobre causa de ensinar religião. Dizem que é  hábito antigo. Ela já tem uns sessenta anos. Meiga, mãos tremosas, mas sempre afáveis. Voz também tremeluzente, muito emotiva. Mais uma que demonstrou pungente alegria pela notícia sobre minha ida para o seminário. Mas, nem sei porque, confessei a ela minha preocupação com o tal enxoval. Talvez eu nem pudesse completar o intento de tal aventura.

Parte IV – Mãos caridosas
 

 

jornaleiro02

abril 12th, 2009

MEMÓRIAS DE UM SEMINARISTA – Parte II

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Parte II – A visita do Padre

Cheguei em casa, felizmente, sem nenhuma tocaia da parte dos “unhas-sujas”. Estou almoçando mas não disse nada à mamãe sobre a visita do “padre”. Foi marcada para a noite quando eles, papai e mamãe, estivessem juntos. Até lá darei um jeito de avisá-los. Puxa vida! E não é que tive mesmo a coragem de me candidatar a ser padre? Onde será o seminário? Nunca vi padre com aquele crucifixo pendurado no peito, só o bispo, pelo menos não na nossa paróquia.

Acabei de entregar o almoço do papai. Enquanto ele degusta a bóia simples que mamãe tão amorosamente preparou, fico a tirar uns alinhavos de prova em um paletó de tergal inglês; especialmente o deste tecido o cuidado deveria ser maior. Tecido caro. Não posso ir enfiando a apontada tesourinha. Prejuízo seria enorme. E para ser redundante, um olho no terno e outro no padre, digo, no papai.

Acabada a frugal refeição, é costume de papai receber na singela alfaiataria, na hora do quilo, descanso do almoço, um que outro colega de ofício dos tantos que há na 7 de Setembro. Jogam umas duas mãos de “damas” do que costumam chamar “o clube dos paturebas”.

E eu de olho no pad… digo papai. Arre, essa palavra “padre” não me sai da cabeça.

Ufa! Finalmente, a sós. Arrisco, que não sou de meias palavras, indo diretamente ao assunto. Justamente na hora que papai ia se sentar à máquina de costura, esticando a mão em velho aparelho procurando a Radio Aparecida de quem era velho devoto, arrisco dizendo: “pai quero ser padre”.

Sob o ruído da rádio que não chegara a ser sintonizado mira-me estático com o olhar arregalado, surpreso. Por uns segundos senti o chão faltar sob o tamborete onde me quedava sentado. Em seguida abriu-me o mais largo sorriso que jamais havia visto naquela face amorenada. No segundo seguinte pude traduzir, item que eu esquecera, que do “congregado mariano” e “sacristão” não poderia proceder senão com a reação que agora presencio. E admirado pela novidade, já sentado, rádio chiando no alto da prateleira, recebe o resto do pacote, pronto, completo: “Um padre vai lá em casa hoje pra conversar com o senhor”. Assim, na tampa. E seja o que Deus quiser. E quis. Tanto que, voz embargada pela emoção cobra-me de onde tirara tal idéia e que estória era essa de padre lá em casa. Explicações todas dadas.

Não preciso dizer que as horas estão passando muito lentamente. Da tal visita tenho prenhes fantasias, miragens do que seria minha vida doravante. Isto é, claro, se houvesse da parte dos “velhos” o aprove necessário.

padre1Nesta noite não tem pescaria*. O sopão cheiroso, no capricho, denota a visita ser importante. Lá pelas tantas, aparece o religioso. Feitas as apresentações, ainda na varanda, aborda-se diretamente o assunto. Ao meu lado a pancada dos seis irmãos, o outro, o sétimo, nos braços da mamãe. Olhos arregalados, curiosos, não entendendo o que poderia proceder de tão diferente visitante. Ditos os preâmbulos e conduzida logo ao ambiente familiar da cozinha, já sentados à grande mesa, papai vai se inteirando de todos os detalhes. Eu todo atenção a todas as perguntas e mais ainda às respostas. Uma delas me chamou mais a atenção: a necessidade de um enxoval. Ué! Enxoval? Não vou me casar como a tia Rosa no mês passado?!

*(Leia neste blog o artigo: RELEMBRANÇAS)

Parte III – O enxoval.

abril 11th, 2009

A PÊRA DO PARAÍSO

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Interessante como as nossas lembranças afloram ao sabor de um pormenor qualquer.
Ao entrar ontem no supermercado, como bom hábito mineiro, dirigi-me à banca de frutas e verduras. Deparei-me com uma raridade: “pêra da terra”, redondinha, crespa e bem rígida. Não resistindo, selecionei seis das mais graudas enquanto divagava no tempo. Reportei-me à infância; possivelmente entre oito e nove anos ,1956 talvez. Tinha já feito a primeira comunhão na velha Igreja de São José do Botanágua em Juiz de Fora e nestas condições era distinguido em continuar as aulas de catecismo no Seminário dos Padres Jesuíadao_evatas na Avenida Rio Branco, às margens do córrego do Ypiranga (hoje Av. Independência), local agora ocupado por condomínios assassinos de um passado gostoso, saudoso.
Voltemos ao causo. D. Ana Reis, velha beata se encarregava de recolher-nos aos sábados à tarde pelas bandas do Bairro Costa Carvalho e conduzir-nos ao seminário em apreço.
O padre Tomas Enríquez, que nos atendia, era um homem circunspecto,  tinha sido prisioneiro em cárcere comunista chinês onde sofrera torturas – escrevera o livro de suas memórias: ” Três Cárceres Comunistas”. Pois bem. O nosso professor dáva-nos a aula costumeira e em seguida um intervalo para o gostoso futebol regados a um acesso às fruterias que rodeavam o campo. Voltávamos depois para sermos ouvidos em confissão. Eu pensava que o esporte servia para chocalhar os pecados e, parcialmente desgrudados, fossem despejados nos ouvidos cansados do velho prelado.
Naquele sábado não fora diferente; antes que nos liberasse à farra deu-nos simples recado: podiamos saciar nossos estômagos famintos com os sapotis, jambos brancos e roxos, pitangas e mangas e tantas outras frutas. Estava proibido, no entanto, colher e concomitante usofruto das pêras. Nenhuma sequer.
Dado o recado foi-se o nosso reverendo às suas preces verperais do velho breviário. E nós, bem, aí começa realmente nossa história. Mal o rabino dera as costas, insurgidos por uns alunos mais velhos, a turba avançou nada mais nada menos à única pereira existente no farto fruteiral do lindo sítio. Enquanto um que outro subia na árvore outros recebiam a chuva de pêras. Iam dando conta a cada dentada que elas estavam ainda verdes. Não satisfeitos iam esperimentando uma a uma. O resultado: um tapete de frutas parcialmente mordidas e abandonadas.
Em seguida o óbvio: O padre, ao final do recreio veio nos buscar. Não pode disfarçar a ira de que foi tomado. Fez-nos recolher em balaio grande todo o estrago feito. Como castigo não receberia ninguém em confissão. Não possuíamos, ainda no fragor da batalha pecaminosa, o predicado necessário: o arrependimento.
O “esbrega” que recebemos da velha senhora Ana, no retorno do imbróglio passeio foi descomunal.
No sábado seguinte, ressabiados, fomos ao encontro novamente das feras. Recordo-me somente de estar ajoelhado no confessionário e o ouvidor sagrado muito zangado comigo. Não conseguia arrancar de mim a confissão do maldito pecado da desobediência da semana anterior, por mais que eu repetisse a ele que eu não fizera parte das travessuras.
Fui o único, mais uma vez, certamente, a voltar para casa sem a absorvição. Ele se negara a ma dar.
E agora no supermercado, creio eu, as pessoas não se deram conta que o riso  que eu espelhava no roso pertencia ao meu viajar longínquo.
Em Tempo: O velho abade deve hoje, na espiritualidade, saber que fui o único, realmente, que não comeu da maçã, digo, da pêra do paraíso.
José Paulo Chinelate

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fevereiro 20th, 2009